Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Mundo

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por Mariana Rossi

 Em agosto de 2012, fez-se mais claro para mim do que nunca que, se você teve a sorte de estudar em uma escola bacana e ter alguém preocupado com a sua educação, sua alimentação e o seu bem-estar físico e emocional, a maneira como você vive é escolha sua, ainda que não pareça. E que a ironia da existência é que as consequências filhas dessa escolha, inescapável, são inevitavelmente vividas, sofridas, por todos. A escolha é sua, e a consequência é do mundo.

A viagem, para mim, parecia interessante – umas semanas no continente africano, a trabalho, com a chance de conhecer partes do seu interior; enquanto eu me ajeitava, feliz, na poltrona do avião, pensava na sorte que eu tinha de ter a oportunidade de conhecer, aqui e ali, o mundo mais além do meu quintal. Sim, algumas dúvidas já moravam em mim, e emergiam, teimosas, vira-e-mexe – terá sentido trabalhar na mineração? Será possível, realmente, contribuir para fazer as coisas de uma maneira melhor? Afinal, se é preciso que a atividade exista – e sim, do modo como vivemos atualmente ela é necessária –, então certamente uma das melhores coisas a fazer é ajudar a fazê-la bem. A única coisa é, bem, ter estômago para aguentar tudo aquilo que não se está fazendo bem, e que provavelmente levará duas ou três – ou quatro? – vidas tuas para melhorar. A coisa é engolir o fato de que, se a mineração já provoca inúmeros desafios sociais e ambientais em países nos quais há governo, há sociedade civil, há controle sobre a atividade extrativa, a situação na maioria dos países africanos é absolutamente desesperadora. E que você, garota, está fazendo parte disso.

 

Pois é. A minha sensação foi a de estar do lado errado do muro. Sim, eu sei que há muitos lados em toda história, e que maniqueísmos em geral não auxiliam o entendimento das coisas, mas foi sensação, e aí ficou – instalou-se, acampou, montou barraca e começou a preparar o churrasquinho. Em meio aos mil interesses envolvidos na atividade de extração mineral na África, e mais especialmente em meio a milhões de pessoas que são, cotidianamente, vítimas desse jogo perverso, o que a mim me interessou foi fazer parte daqueles que estão lá sem nenhum interesse que não a ajuda, pura e complexa (☺), às pessoas em situação de emergência – emergências frequentemente provocadas por aqueles interesses. 

 

Foi assim que mente e coração fizeram um motim e me mandaram, clara, a mensagem – chuta o balde e vai pro setor humanitário. Foi assim que começou minha história com os Médicos Sem Fronteiras (MSF).

OK, Mariana, bacana. Só que nada a ver com o 10 por hora.

Quê?! Para mim tem tudo a ver! 

Batangafo - RCAFoto: Mariana Rossi - Batangafo, República Centro-Africana (2013)

 

Tem a ver, diretamente, com o papel social inescapável que temos, as escolhas que fazemos, o que valorizamos, o ritmo de vida que levamos, as atividades que reforçamos, o que defendemos. Tem a ver, ainda mais diretamente, com os temas de urbanização, mobilidade, liberdade!, que estão pouco a pouco forçando-se na agenda social e política do continente africano, acotovelando-se entre os temas de segurança, desenvolvimento econômico, religião, saúde – de todos os quais já pude ver um pouco, nas andanças com MSF. Tem a ver com o paradoxo entre estilos desacelerados de vida e processos de urbanização desenfreados do qual a África é palco, e que dá sinais de todo lado – os quais podem ser vistos de um ângulo especial se você está num cantinho da República Centro-Africana, tentando oferecer ajuda médica de qualidade num hospital a 500km de qualquer outro, ou no meio da efervescente Freetown e seu 1/3 de toda sua população serra-leonesa, ajudando a administrar um centro de tratamento de Ebola.

E é por isso que, a partir de hoje, terei o prazer de escrever um pouquinho aqui no 10porhora, contando anedotas aqui e ali das experiências com MSF, buscando ajudar a conectar alguns dos fios da sustentabilidade – essa busca por equilíbrio que é, também ela e por definição, sem fronteiras. Partiu!

 

Serra LeoaSerra Leoa (2015)

  

Mariana Rossi é formada em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Atualmente atua pela Médicos Sem Fronteiras em Juba, no Sudão do Sul, 

tendo realizado missões na República Centro-Africana e em Serra Leoa.

uma vez até morrer

Escrito por  |  Quarta, 18 Maio 2016 16:00  |  Publicado em Mundo
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A morte em cidade do interior é acontecimento.

A Coluna e O Tempo

Escrito por  |  Terça, 16 Fevereiro 2016 11:34  |  Publicado em Mundo
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Aviso aos navegantes: essa coluna não é apressada. É lerda. Ela tenta remar contra a maré do imediatismo, da urgência dos dias. O que não é regra, porque vez ou outra a gente vai querer falar do que está fresco, do que está por vir, do que talvez nem venha.

Ciclos, sonhos - Uma carta de alegria

Escrito por  |  Segunda, 14 Julho 2014 12:28  |  Publicado em Mundo
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Esta é uma carta muito boa. Vem de uma sensação feliz de segura caminhada na trajetória convidativa e inevitável da vida. Há alguns anos, quando a Copa se anunciou no País, floresceu junto a ideia de que ela geraria uma nova movimentação em alguns setores do mundo do trabalho, ofereceria algumas chances, algumas oportunidades. Naquela altura, meu pai e minha mãe tiveram a sutileza de me estimular a aproveitar o momento para construir meu futuro, fortalecer minha produção audiovisual, buscar. Esta oportunidade não esteve dada para todos os que queriam, nem muito menos todos os que precisam. Sou grata que tenha aparecido para mim e luto para que possa aparecer para cada vez mais sonhadores e sonhadoras, que somos todos.

A Copa me trouxe um universo novo de interesses e realidades. Fui introduzida ao universo dos direitos humanos e a compreensões politicas e sociais inteiramente novas, estiraram-se algumas cortinas que escondiam temas verdadeiramente importantes para o meu coração e para o que entendo como trabalho e serviço. Ao 'fim' do processo do mundial, que não é senão, como tudo na vida, apenas um ciclo que gerará outro, posso perceber que agarrei suas oportunidades. Sou muito feliz pelo trabalho desenvolvido e em desenvolvimento no Projeto 10porhora, pelos estímulos e buscas de desacelerar e conectar sustentabildade na minha própria vida. Muito começou em 2012 com um convite do Projeto e do amigo Diego para participar de uma oficina de Vídeo Para os Direitos Humanos, convite este que foi o abrir da tampa de um baú que revelou um mundo novo. A sustentabilidade não é senão um chamado carinhoso e atento para o equilíbrio. Sou muito feliz pelo trabalho desenvolvido junto à Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, ao qual fui apresentada na oficina, muito obrigada pelas portas abertas e os ensinamentos importantes sobre trocas, dedicação, trabalho e comunidade - fico satisfeita em perceber que pude retribuir, particularmente com um curta-metragem que engrandece meu trabalho como editora, ao que me dedico com coração, e colabora para a construção e fortalecimento de um audiovisual brasileiro e internacional engajado com os direitos humanos, e de uma sociedade mais amiga e mais integrada, o curta Cartão Vermelho. Obrigada ao 10 pelas contínuas oportunidades e confiança. Pudemos ainda realizar juntas(os) uma curadoria que me ensinou sociologia, comunicação e audiovisual semanalmente, que fez nascer o projeto Ciclovideos; pudemos estar nas ruas; pudemos estudar muito; pudemos sonhar alto; e pudemos realizar e construir mudanças.

Aos amigos e amigas que se estendem na caminhada, aos que se tornam família e aos que maravilhosamente sempre foram, aos que apóiam a busca e jogam flores no caminho, aos e às que se abrem para novas jornadas e novas possibilidades, e aos que lutam por uma comunidade mais feliz e mais equilibrada,

muito obrigada pela parceria e a amizade,

Luiza

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Toda semana às terças, o 10porhora sugere uma programação de três vídeos para convidar a dar um tempo no dia e na semana para pensarmos sobre a vida em coletividade e o cuidado com a(o) próxima(o). Trazemos vídeos que encontramos por aí, vasculhando a web por produções principalmente nacionais com ações solidárias, cidadãs, responsáveis, criativas, divertidas, prazerosas que nos convidam a pensar a rua e a vida como um espaço de todas(os).



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